A Arte de Ser Brasileiro

terça-feira, setembro 05, 2006

Quinze de maio de 2006, São Paulo. Essa noite, eu tive um sonho de sonhador, maluco que sou acordei. No dia em que São Paulo parou.


“Essa noite eu tive um sonho
de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
com o dia em que a Terra parou”

O Dia em que a Terra Parou
Raul Seixas
Composição: Cláudio Roberto / Raul Seixas

Um projeto tem como objetivo a criação de um produto, serviço ou resultado único. É executado por pessoas, possui recurso limitado, é planejado, executado, controlado, temporário – o que significa que tem início, meio e fim – e composto por processos operacionais. Cada processo é composto por várias atividades que geram resultados. Tudo isso forma a metodologia de gestão de projetos que deve ser seguida por todos que estão envolvidos com a execução do projeto. Sejam da própria organização ou não.
Catorze de maio de 2006, domingo dia das mães. Dias antes líderes de uma facção criminosa são isolados. Um programa de televisão alerta que será um fim de semana impossível de prever o que poderá acontecer. Quem puder deve deixar a cidade de São Paulo. Presos saem dos presídios para passar o fim de semana com suas famílias. Porém muitos não vão para suas casas, têm em mãos uma atividade bem detalhada, planejada em seus mínimos detalhes que deverá ser executada para atingir as metas do projeto.
Doze de maio de 2006, manhã de sexta-feira. Deputados são surpreendidos com escoltas policiais, um vereador é assassinado a tiros. O que não se podia prever acontece. A população em sua maioria não toma conhecimento. Segunda-feira, quinze de maio, todos vão para o trabalho e durante a manhã as noticias se espalham, os ataques são divulgados pela mídia. O número de vítimas surpreende. Hora do almoço. Mais ônibus incendiados. Imagens na televisão. A polícia aparentemente perdida, para se proteger, desaparece das ruas. As horas passam e o descontrole atinge seu ponto máximo por volta das 14h00m, quando a população toma conhecimento de um toque de recolher para as 20h00m. Trabalhadores são dispensados as 16h00m. Compromissos são desmarcados, aulas são suspensas. A multidão apavorada foge para suas casas. Telefones celulares congestionados. Metrô e ônibus lotados. Trânsito parado. Como não bastasse o caos imposto por criminosos da facção, outros tipos de criminosos aproveitam que a sociedade anseia por notícias, para dissipar vírus de computador escondidos em e-mails sobre os acontecimentos na cidade. As 20h00m, São Paulo está deserta.
Nossos governantes vêm a público com suposições, acusações, ameaças, ódio. Enquanto os ‘homens sem metodologia’ discutem responsabilidades, apresentam discursos evasivos para acalmar a população, os ‘homens com metodologia’ medem os resultados obtidos e comparam com os esperados. Avaliam o projeto de resultado único, discutem as lições a serem aprendidas.
Enquanto isso nossos ex-governante, hoje candidatos à presidência, no lugar de repetirem a atitude que tiveram dias atrás e voltar para o comando da cidade, pois o que ocorreu nesses dias é fruto de uma gestão que estava na responsabilidade desse ex-governante, continua ‘encostados na parede, de olhos fechados fingindo dormir no banco reservado‘.
Nosso ilustre presidente oferece ajuda, nosso ilustre governador não aceita alegando estar tudo sob controle. Os ‘homens com metodologia’ colocam em ação novo projeto. Bombas nos prédios do Ministério Público, na Secretaria de Estado da Fazenda, na Assembléia, Poupatempo, Guarda Civil Metropolitana.
Nosso ilustre presidente continua oferecendo ajuda. Nosso ilustre governador continua não aceitando. Os ‘homens sem metodologia’ trocam acusações, procuram justificativas para a falta de eficiência, de inteligência, insistem em discursos desesperados para camuflar o colapso da segurança pública no Estado. Os ‘homens com metodologia’ estrategicamente gerenciam suas equipes em novas atividades. Parceria, permutação, anistia, irmandade, tudo funcionando perfeitamente. Resultado: Novos ataques a agências bancárias, postos de gasolina, ônibus, lojas, supermercado. Nosso ilustre presidente continua, em seus interesses e posições, oferecendo ajuda enquanto nosso ilustre governador continua, em suas posições e interesses, negando.
Uma emissora de maior repercussão no país interrompe sua programação para transmitir um comunicado da facção criminosa. Será essa a situação sob controle que nossos governantes insistem em dizer?

O presidente oferece ajuda. Será que o presidente tem conhecimento que desde 2002 o governo federal reduziu em 40% os investimentos na área de segurança. Será que o presidente tem conhecimento de todo o contexto que envolve os acontecimentos em São Paulo para oferecer a ajuda certa, eficiente e eficaz? Não tenho tanta certeza, pois se nunca sabe o que acontece ao seu redor, não acredito que saiba o que acontece em baixo.

Chega o horário eleitoral: De início a esperança de encontrar solução, agora, já não sei “quem quer manter a ordem e quem quer criar desordem” (1).

Tenho certeza que temos policiais física e psicologicamente capacitados, dignos, éticos, que mesmo com pais carinhosos, cônjuges amados, filhos ainda necessitados de carinho e proteção, não medem esforços quando se trata em nos defender. Mas nada adianta ter policiais talentosos, preparados, responsáveis, quando a liderança é fraca, frustrante, desmotivada, fecha os olhos para a realidade.

O produto dos “homens com metodologia” resultou em agentes penitenciários, policiais, bombeiro, oficialmente cerca de 129 mortes. Perdemos muitas vidas com esses acontecimentos. No meu caso, além de também perder dois candidatos, para todas as próximas eleições, perdi a confiança em nossos governantes.

Assinado: (Metrô Linha 743).

(1) Desordem – Titãs - Composição: Sérgio Britto / Charles Galvin / Marcelo Fromer