A Arte de Ser Brasileiro

terça-feira, julho 22, 2014

Jornal Nacional Anuncia Império. (Enganado? Quem? Eu? Até tu Império!)

Mais uma Vez
(Renato Russo)


Mas é claro que o sol 
Vai voltar amanhã 
Mais uma vez, eu sei... 

Escuridão já vi pior 
De endoidecer gente sã 
Espera que o sol já vem... 

Tem gente que está do mesmo lado que você 
Mas deveria estar do lado de lá 
Tem gente que machuca os outros 
Tem gente que não sabe amar... 

Tem gente enganando a gente 
Veja nossa vida como está 
Mas eu sei que um dia a gente aprende 
Se você quiser alguém em quem confiar 
Confie em si mesmo... 

Quem acredita sempre alcança... 
Mas é claro que o sol...

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena 
Acreditar no sonho que se tem 
Ou que seus planos nunca vão dar certo 
Ou que você nunca vai ser alguém... 

Tem gente que machuca os outros 
Tem gente que não sabe amar 
Mas eu sei que um dia a gente aprende 
Se você quiser alguém em quem confiar 
Confie em si mesmo... 


Quem acredita sempre alcança... 
Mas é claro que o sol...


Essa noite lembrei-me de meu avô. Virava e mexia dizia: “No meu tempo se confiava na palavra de um homem... No meu tempo não se duvidava da palavra de um homem”.

Meu avô completou sua jornada aqui na terra. Pensei nunca mais ouvir essas frases quando de repente passei a ouvir minha mãe dizer:  “No meu tempo  podia-se sair a noite sem perigo. No meu tempo as meninas não se comportavam assim”.

Em um tempo como o de hoje onde vemos policiais descarregando toda munição em dois garotos com a certeza da impunição, e o que é pior, com a naturalidade como quem senta à mesa para se alimentar todos os dias, políticos corruptos continuando com,  e no,  poder e, o difícil de esquecer, Brasil tomar 7 gols  nas quartas- de final em uma copa do mundo em nossa casa, tinha a certeza de quando chegasse no que chamam hoje de Melhor Idade, nunca pronunciar frases como “No meu tempo...” porque nada mais surpreende, nada mais é inesperado.  Isto até assistir o Jornal Nacional desta noite.

Assistia o Jornal Nacional quando o forno elétrico apitou indicando que o sanduiche estava pronto. Caminhava para a cozinha quando ouço William Bonner me convidar para “acompanhar a história de superação de um homem”.  O Jornal Nacional nunca foi uma mídia de autoajuda, por isso, para uma chamada como essa só poderia ser uma reportagem especial ou algo que aconteceu em algum lugar desse mundo, como os bombeiros que superaram o cansaço, a fadiga, para retirar uma família que ficou soterrada,  Assim, corri para a cozinha, abrir a porta do Forné elétrio para queimar o lanche  (não daria tempo para pegá-lo) e voltei correndo para a sala a tempo de ouvir o tal Boa Noite. Minha esposa vendo eu chegar correndo à sala, sem o lanche, e com a cara de surpresa ao ouvir o boa noite, sorrindo me disse:  “Pegadinha, era só a chamada para a novela Império”.


Voltei para a cozinha. Pois é, no meu tempo podia-se acreditar  na palavra de um apresentador do Jornal Nacional sem jamais passar pela cabeça que pode ser um pegadinha.  Em uma próxima chamada como está não vou deixar de apertar o botão do controle remoto, vai que é uma chamada para um novo comercial de pasta de dente. Vai que.....  Costumo responder para minha mãe que estamos em outros tempos, outro século. Fechei a porta do forno elétrico e me deparei com o reflexo de meu rosto.  Como um milagre entendi a mensagem de Bonner. Não, não, não fui enganado pelo Jornal Nacional, mais velho que meus 50 anos,  Sua intenção era dizer “olha rapaz, tem gente enganando a gente, se você quiser alguém em quem confiar meu chapa, confie em si mesmo”. Se é para ser enganado, prefiro que seja por mim mesmo.  É isso aí. Peguei o sanduiche e fui para a internet.

SidFer
21/07/2104

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