A Arte de Ser Brasileiro

domingo, março 04, 2018



Luto em respeito ao Carnaval de 2018 do Rio de Janeiro.

G.R.E.S. Beija Flor de Nilópolis (Campeã Carnaval RJ 2018)
Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor
Sou eu, espelho da lendária criatura
Um monstro carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio Criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
À procura de uma luz, a salvação!
Estenda a mão, meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu

Paraíso do Tuiuti (vice-Campeã Carnaval RJ 2018)
Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão no Brasil?
Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor 
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz
Eu fui mandinga, cambinda, haussá
Fui um rei egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se planta gente
Ê calunga! Ê ê calunga!
Preto Velho me contou, Preto Velho me contou
Onde mora a sengora liberdade
Não tem ferro, nem feitor
Amparo do rosário ao negro Benedito
Um grito feito pele de tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor 
E assim, quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel
Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

Enfim termina uma semana triste que o carnaval de 2018 não merecia em seu currículo. A semana terminou ontem, mas seu legado não sei precisar até quando durará.

‘Deu no noticiário, com lágrimas escritas’ que as escolas de samba do Grupo Especial do RJ decidiram em plenária na LIESA, cancelar os rebaixamentos de duas escolas (que tenho em meu coração), descumprindo o regulamento criado e aprovado pelas próprias escolas de samba.

Um carnaval marcado pelo desabafo, pelas críticas à todos os tipos de corrupção no Brasil, por mostrar explicitamente o povo como fantoches nos fios de alguns,  aqueles que tem o poder do carnaval do RJ não podiam criar seus próprios fios e colocar em suas pontas a mídia, os jurados, os patrocinadores, os investidores, o público atrás dos televisores de suas casas, o público que vai ao Sambódromo e os componentes das escolas de samba (todas sem exceção), que com comprometimento, dedicação e com muita renúncia à momentos com amigos e famílias, trabalham o ano todo para faz acontecer o espetáculo que o mundo assiste todos os anos, no teatro chamado Sambódromo.

A decisão não se limitou ao mundo do Carnaval, conforme divulgado pela impressa, pedidos do prefeito de Duque de Caxias e o prefeito e governador do Rio de Janeiro foram feitos a LIESA para que não ocorressem os rebaixamentos. Pergunto a cada um: ‘Qual será o seu valor?’.  Será que o carnaval também virou ‘pobre artigo de mercado’.

‘Meu Deus! Meu Deus! Se eu chorar, não leve a mal’, é que o samba não está fazendo essa dor dentro do peito, provada pelo desapontamento, pela indignação, pela falta de respeito com a memória do Carnaval de 2018 do RJ, ir embora.

Dizem que brasileiro esquece tudo muito rápido. De fato, pode ser que isso aconteça com nós brasileiros, mas pode não acontecer o mesmo com o poder maior que todos, chamado Sambódromo.

O Carnaval do RJ foi ferido, está sangrando, mas quem se importa? Apenas mais um ‘menino abandonado’.

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