Luto em respeito ao Carnaval de 2018 do Rio de Janeiro.
G.R.E.S. Beija
Flor de Nilópolis (Campeã Carnaval RJ 2018)
Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor
Sou eu, espelho da lendária criatura
Um monstro carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio Criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
À procura de uma luz, a salvação!
Estenda a mão, meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Paraíso do Tuiuti (vice-Campeã
Carnaval RJ 2018)
Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão no Brasil?
Irmão
de olho claro ou da Guiné
Qual será o valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz
Qual será o valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz
Eu fui mandinga, cambinda, haussá
Fui um rei egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se planta gente
Fui um rei egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se planta gente
Ê calunga! Ê ê calunga!
Preto Velho me contou, Preto Velho me contou
Onde mora a sengora liberdade
Não tem ferro, nem feitor
Preto Velho me contou, Preto Velho me contou
Onde mora a sengora liberdade
Não tem ferro, nem feitor
Amparo do rosário ao negro Benedito
Um grito feito pele de tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor
Um grito feito pele de tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor
E assim, quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel
Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social
Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação
Enfim termina uma semana triste
que o carnaval de 2018 não merecia em seu currículo. A semana terminou ontem,
mas seu legado não sei precisar até quando durará.
‘Deu no noticiário, com lágrimas
escritas’ que as escolas de samba do Grupo Especial do RJ decidiram em plenária
na LIESA, cancelar os rebaixamentos de duas escolas (que tenho em meu coração),
descumprindo o regulamento criado e aprovado pelas próprias escolas de samba.
Um carnaval marcado pelo desabafo,
pelas críticas à todos os tipos de corrupção no Brasil, por mostrar explicitamente
o povo como fantoches nos fios de alguns,
aqueles que tem o poder do carnaval do RJ não podiam criar seus próprios
fios e colocar em suas pontas a mídia, os jurados, os patrocinadores, os
investidores, o público atrás dos televisores de suas casas, o público que vai
ao Sambódromo e os componentes das escolas de samba (todas sem exceção), que
com comprometimento, dedicação e com muita renúncia à momentos com amigos e famílias,
trabalham o ano todo para faz acontecer o espetáculo que o mundo assiste todos
os anos, no teatro chamado Sambódromo.
A decisão não se limitou ao mundo
do Carnaval, conforme divulgado pela impressa, pedidos do prefeito de Duque de
Caxias e o prefeito e governador do Rio de Janeiro foram feitos a LIESA para
que não ocorressem os rebaixamentos. Pergunto a cada um: ‘Qual será o seu
valor?’. Será que o carnaval também
virou ‘pobre artigo de mercado’.
‘Meu Deus! Meu Deus! Se eu chorar, não leve a
mal’, é que o samba não está fazendo essa dor dentro do peito, provada pelo desapontamento,
pela indignação, pela falta de respeito com a memória do Carnaval de 2018 do RJ,
ir embora.
Dizem que brasileiro esquece tudo
muito rápido. De fato, pode ser que isso aconteça com nós brasileiros, mas pode
não acontecer o mesmo com o poder maior que todos, chamado Sambódromo.
O Carnaval do RJ foi ferido, está
sangrando, mas quem se importa? Apenas mais um ‘menino abandonado’.

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