A Arte de Ser Brasileiro

sábado, março 22, 2008

Aedes Aegypti político

Caro amigo

Há muito espero notícias de você e de sua família. Há muito esperamos seu retorno. Porém, escrevo essa carta para dizer que, se conseguiu ler meus recados e pretende nos fazer uma surpresa, não venha nesse momento. Não volte para o Brasil nesse momento.

Lembra do Carioca, foi passar o fim do ano com sua família no Rio de Janeiro. Nosso amigo, sua filha do meio e seu filho caçula voltaram com dor no corpo e febre alta. Procuraram ajuda médica onde foi diagnosticado uma forte gripe e receitado antibióticos. Como continuavam com os mesmos sintomas e cada vez mais fracos, voltaram ao hospital e descobriram que estavam com dengue. O filho caçula do tipo hemorrágica.
Os três ficaram internados em estado grave. Os médicos chegaram a dizer para a mãe que, casos como do menino caçula, 96% tinham o óbito como resultado.
A família chama de milagre, o fato é que hoje estão todos em casa.

Mas outros brasileiros, principalmente nossos irmãos cariocas não têm a mesma sorte.
Mas uma vitima de dengue foi enterrada na cidade maravilhosa.
Ontem os jornais mostraram a falta de atendimento e o pouco caso das autoridades para com a população que procura os hospitais.
Mais uma vez o cidadão brasileiro sofre pela incompetência da turma do nosso presidente.
Assim como é de praxe, nosso governo terá que correr para apagar incêndio. Mas isso só começará após esse feriado.

Foi difícil dormir essa noite com a imagem de milhões de brasileiros caminhando de joelhos, chorando ‘uma culpa’ por fatos ocorridos milhões de anos atrás enquanto um pai aguardava com sua filha desmaiada em seu colo, com todos os sintomas da dengue, o milagre de ser atendido por um médico.

A história novamente será escrita por nós. A escolha de quem será crucificado está em nossas mãos. A população ou nosso governo? Podemos decidir nas próximas eleições.

A imagem desse pai e filha é presente. Para essa culpa, não precisamos esperar milhões de anos para chorar, podemos derramar nossas lágrimas agora.

Assinado: (Metrô Linha 743).

sábado, março 08, 2008

Nossa Tropa de Elite

“Homem de preto o que que você faz?
Eu faço coisas que assustam Satanás.
Homem de preto, qual é sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpo no chão”

Homem de Preto
Tropa de Elite

Caro amigo, lembra do Magal? Aquele que brincava de guerra de mamona com a gente? Foi morar no campo com a idéia de criar galinha mas, por falta de dinheiro, nem cachorro conseguiu ter. Há um ano estava só sorriso com o tal do programa ‘Luz para Todos’ do nosso presidente que tinha como objetivo tirar da escuridão 12 milhões de brasileiros que vivem no campo e não tem acesso a energia elétrica. Tem que vê, Magal voltou a sonhar com sua criação de galinhas, sua exportação de galeto, aliás, falando em sonhar, ele confessou orgulhoso que contribuiu para reeleger nosso presidente. Falando nele, ‘tadinho’, tão ingênuo não sabia, como nunca sabe de nada, que para tirar a escuridão dos honestos brasileiros do campo era preciso primeiro tirar os gatunos políticos brasileiros do caminho.

Assim nosso amigo entrou em depressão. Fui visitá-lo. Sua esposa e seus cinco filhos me contaram que tem meses que perceberam nosso amigo deixando essa vida sem poderem fazer nada. Diferente do nosso presidente, os filhos do nosso amigo foram obrigados a envergonhar a mãe roubando maçãs para não morrerem de fome. Sua esposa seguiu todos os conselhos dos amigos. Procuraram padres, pastores, benzedeiras, pajés, pais-de-santo, mas Magal cada dia pior. Um farmacêutico que apareceu por lá receitou remédios que o posto de saúde da cidade mais próxima nem conhecia. Logo que soube do ocorrido, comprei os remédios e mandei para ele. Felizmente melhorou muito nos últimos dois meses. Já pensa em trabalho, em progredir, em entrar para a estatística de desenvolvimento humano. Está entusiasmado com o novo programa do nosso presidente chamado ‘Territórios da Cidadania’ onde o governo irá destinar 11,3 bilhões a 958 municípios de todo o pais com o objetivo de reduzir a pobreza em áreas rurais de baixo desenvolvimento social, melhorando o IDC – Índice de Desenvolvimento Humano.

Ainda tenho a imagem no nosso amigo quando nos despedimos. Já estava no portão de sua casa quando Magal gritou meu nome. Sorrindo me virei para nosso amigo. Magal levantou o braço para o alto encheu seus pulmões de ar e gritou: “Amigo, eu tenho orgulho de ser brasileiro. Agora chegou a minha vez. Vai dar tudo certo pode apostar. Tenho fé em Deus”.

Forçando o sorrido que já tinha pegado suas malas e partido do meu rosto, comecei a andar pela estrada de terra. Não parei no local onde pegaria o ônibus até a primeira cidade com rodoviária. Continuei andando de mochila nas costas, mãos fechadas, unhas cravadas na pele. Não via o mato ao meu redor, a terra seca abaixo de meus pés, nem percebia o sol escaldante em minha cabeça.

Nessa hora gostaria de ter me lembrado da foto sensual da jornalista de Renan Calheiros que virou notícia, ter pensado na utilidade que suas futuras palestras podem ter, mas lembrei-me apenas do pedestal de seu microfone quando encheu de ar os pulmões e disse: “Rapaz, para tirar o coco, não basta balançar o pé que ele não cai. Quem quiser, vai ter que subir no pé e retirar o coco com as próprias mãos”.

Você, seja em que lugar do mundo se encontra, eu e tantos outros milhões de brasileiros por comodismo, por hipocrisia, por indiferença, por tantas outros interesses pessoais ou falta de, não subimos em nenhum dos coqueiros para tira o coco. Por isso também fazemos parte de uma tropa que deixa corpos vivos pelo chão da cultura, da igualdade, da educação, da saúde, da dignidade, da esperança, da paz.

Na verdade, caro amigo, não usamos preto mas também fazemos coisas que assustam Satanás. Naquele fim de mundo estive com uma vítima de perto. Nosso próprio amigo.

Assinado: (Metrô Linha 743).